No nosso segundo texto sobre os times campeões mundiais e no aquecimento para o jogo de logo mais, o incrível Flamengo de 1981
*Por Victor Carneiro
Os primeiros passos
É impossível falar do Flamengo de 1981 sem relembrar o papel decisivo do brilhante treinador Cláudio Coutinho. Conhecido como uma das grandes mentes da história do futebol brasileiro, Coutinho tinha um grande comprometimento com a disciplina tática e era um defensor da europeização dos métodos futebolísticos. Ele foi um inovador e, com ajuda da base rubro-negra, conseguiu montar um time repleto de craques, como Zico, Leandro, Júnior, Adílio, Andrade e companhia, e que jogava um futebol inteligente e agressivo. Por mais que o técnico do título mundial tenha sido Paulo César Carpegiani, o próprio reconhece que Coutinho foi o arquiteto do sucesso rubro-negro.
Embora o mundial tenha vindo apenas 3 anos depois, muitos rubro-negros consideram que a história do título tenha começado a se desenhar no ano de 1978, mais especificamente no dia do título carioca contra o Vasco. Naquele 3 de dezembro, o Flamengo ganhou de 1×0 de seu maior rival, com gol de cabeça de Rondinelli, o zagueiro conhecido como “Deus da Raça”. Foi o primeiro título da era Coutinho, e abriu as portas para muito mais. Em 1979 o Flamengo foi tricampeão carioca, já que ganhou os dois estaduais daquele ano (a edição normal mais uma edição especial que teve naquele ano), mas ainda não havia conseguido conquistar glórias além do Rio. Em 1980 foi a vez de conquistar o Brasil: a equipe de Cláudio Coutinho foi campeã brasileira após uma vitória épica por 3 a 2 em cima do Atlético-MG. Naquele dia a equipe da Gávea se tornou a última das 4 grandes cariocas a sair do regionalismo e finalmente conquistar um título de expressão nacional.
A campanha na Libertadores
Por discordâncias com a diretoria do Flamengo, Cláudio Coutinho acabou saindo em 81 e deixou seu trabalho para Paulo César Carpegiani. Ex-jogador, Carpegiani havia acabado de se aposentar como jogador no Flamengo depois de 1980, graças a uma séria lesão no joelho. Ele abraçou as metodologias de Coutinho e manteve o time em boa fase.
Na Libertadores daquele ano apenas o primeiro colocado de cada grupo classificava-se para a fase final. No grupo do Flamengo estavam Atlético-MG, Cerro Porteño e Olimpia. Após jogos de ida e volta entre todos esses times, Flamengo e Atlético-MG empataram na liderança com 8 pontos cada. Assim, foi marcado um jogo extra, de desempate, entre as duas equipes. Esta decisão ficou marcada pela atuação desastrosa de José Roberto Wright, que aos 37 minutos do segundo tempo, num jogo pegado, acabou expulsando um jogador do Atlético-MG e na confusão gerada após essa primeira expulsão perdeu a cabeça e expulsou outros 4 atletas do Galo. Dessa forma polêmica o Flamengo avançou para as fases finais. Polêmica, aliás, era uma palavra chave nas Libertadores do século XX e elas ainda voltariam a aparecer na grande final, dessa vez contra o Flamengo.
Naquela época a fase de semifinal era outra fase de grupos, dessa vez com 3 times, e novamente com apenas o líder passando. A equipe rubro-negra não teve problemas nesta fase e passou tranquilamente por Deportivo Cali e Jorge Wilstermann, ganhando todos os 4 jogos. Na outra chave quem passou foi o Cobreloa, clube de ascenção surpreendente que apenas no seu quarto ano de história já estava numa final de Libertadores. O clube era patrocinado por uma empresa estatal de cobre (para os que não sabem, o Chile é de longe o maior exportador de cobre do mundo) e recebia muito dinheiro do Estado, o que permitiu um crescimento tão rápido.
Os 36 dias de glória
Do dia 8 de novembro até 13 de dezembro de 1981, o Flamengo vivenciou os 36 dias mais felizes da vida de seus torcedores. Neste período o clube da Gávea jogou 11 jogos, conquistou 3 títulos e revidou uma goleada histórica contra um de seus rivais. É impossível contar a história desse time sem falar no que aconteceu nesse período.
No primeiro dos 11 jogos, o Flamengo encontrou o Botafogo pelo carioca, rival que nove anos antes o havia goleado por 6×0. O próprio Zico dizia que ele jogava em uma intensidade diferente contra o Botafogo pois tinha esta e outras goleadas entaladas na garganta. Naquele dia o Flamengo abriu 4×0 no primeiro tempo e, após gol de pênalti de Zico no segundo tempo, a torcida passou a pedir mais um. A partir dali parecia que quem estava perdendo era o rubro-negro, que partiu para o ataque, enquanto seu rival se retrancava. Contudo, a postura defensiva alvi-negra não foi suficiente e aos 42 minutos do 2º tempo Andrade fez o sexto da entrada da área. Aquele foi o começo do mais glorioso período de todos os tempos e, segundo Júnior, a goleada foi tão comemorada quanto qualquer título da época.
Depois dessa partida o Flamengo ganhou de 6 a 1 do Americano também pelo Campeonato Carioca, até que no jogo seguinte começou a decisão da Libertadores. Flamengo e Cobreloa se encontraram no Maracanã, onde a equipe da Gávea saiu vitoriosa por 2 a 1, com 2 de Zico. Neste jogo deu para começar a sentir a tônica que o time Chileno queria imprimir naquela final. Zico saiu de campo reclamando bastante das pancadas que levou. Chegou a perder o dente numa cotovelada. Aquele era visivelmente um time agressivo.
Antes do jogo de volta ainda teve um Fla-Flu no carioca, no qual o rubro-negro saiu vitorioso por 3 a 1. Dali, o Flamengo foi para o Chile. Para quem não está familiarizado com a história da América Latina, em 1981 o Chile estava sob a ditadura de Augusto Pinochet. O Brasil também vivia em Estado de exceção, porém o período foi muito mais brutal para a população chilena, que viveu a mais bárbara e repressiva das ditaduras militares da época. Foi neste ambiente e num clima de nacionalismo extremado que torcidas de vários times chilenos se uniram para torcer pelo jovem clube patrocinado pela extração de cobre. O que foi vivido em Santiago naquele dia foi um clima de guerra. Segundo alguns jogadores do Flamengo a sensação era que se saíssem campeões daquele estádio, talvez não saíssem vivos. Liderados pelo zagueiro Mário Soto, que chegou a jogar com pedra na mão, os chilenos bateram muito nos atletas rubro-negros, com a complacência do juiz, que quando tinha sua atenção chamada por algum jogador, dizia que ele deveria revidar. Uma das cenas que melhor refletem o clima daquela partida foi o momento logo após o gol do Cobreloa (a partida terminou 1 a 0 para eles). Um fotógrafo entrou em campo e celebrou na cara de Júnior, que tomado pela raiva chutou a câmera do mesmo. Nisso um soldado chileno entrou em campo, apontou a metralhadora para ele e a deixou engatilhada. Felizmente fora algumas poucas lesões nada demais aconteceu e o Flamengo pôde ir para o terceiro jogo (de desempate) sem sofrer nenhuma tragédia.
Em 23 de Novembro de 1981, o Flamengo e o Cobreloa viajaram para Montevidéu, onde se enfrentaram no Estádio Centenário. Depois de uma verdadeira guerra em Santiago, o Flamengo entrou no jogo decisivo determinado a focar no futebol. Foi deste jeito que o Flamengo ganhou de 2 a 0, com mais um show de Zico, autor dos 4 gols do Flamengo na fase decisiva da Libertadores. Para muitos, o melhor momento do jogo inclusive nem foram os gols, mas sim quando o atacante reserva Anselmo entrou em campo nos minutos finais apenas para dar um grande soco na cara de Mário Soto, que perdeu alguns dentes. Uma verdadeira vingança. O Flamengo, com apenas 9 jogadores em campo, terminava a partida como campeão da América e classificado para o Mundial.
Antes do mundial, todavia, o Flamengo ainda tinha compromissos com o campeonato carioca. Apenas 48 horas depois da final da Libertadores entrou em campo contra o Volta Redonda e conquistou o terceiro turno da competição após uma vitória por 5 a 1. Tudo parecia perfeito, até que Cláudio Coutinho, a mente que criou aquele time, morreu afogado pouco antes de ver o maior momento da história rubro-negra se concretizar. Em meio a superação do luto, o Flamengo ainda tinha que decidir o título estadual contra o arquirrival Vasco antes de viajar para Tóquio. Em 6 de dezembro de 1981, 7 dias antes do Mundial Interclubes, o Flamengo bateu o Vasco por 2 a 1 e mais uma vez conquistou o Rio.
O Mundial Interclubes
Em 13 de dezembro de 1981, o último dos 36 dias, Flamengo e Liverpool se encontraram para brigar pelo mundo. O atual campeão das Américas, que começava a empilhar títulos no Brasil, contra o campeão de 3 das últimas 5 edições da Liga dos Campeões da UEFA. No entanto, aquele que parecia o maior desafio do período acabou sendo talvez o mais tranquilo deles. Com pouco conhecimento por parte dos Europeus sobre como jogava a equipe liderada por Zico, o Flamengo os deixou atordoados e logo no primeiro tempo abriu 3 a 0. No segundo tempo apenas teve o trabalho de manter o placar igual e pôde se consagrar como campeão mundial pela primeira vez. Há quem diga que os jogadores do Liverpool entraram com salto alto e há relatos de que quando o Flamengo entrou em campo, jogadores do Liverpool riram com desdém, como quem acreditava que seria fácil. Independente disso, o fato é que em dezembro de 81 o Flamengo botou os Ingleses na roda e o 3 a 0 no Liverpool ficou marcado na história.




