O dia que o mundo foi pintado de vermelho

Hoje, vamos relembrar a vez em que o mundo foi pintado de vermelho. Pela primeira vez

*Por Bruno Silva Villela

Essa história não começa no dia 17 de dezembro de 2006, data da final do mundial de clubes realizada entre Internacional e Barcelona, mas sim em 16 de fevereiro de 2006, estreia do Colorado na libertadores, contra o time venezuelano Maracaibo que terminou com um empate amargo, mas a garantia de que essa libertadores traria fortes emoções.

            O time comandado pelo técnico Abel Braga e o eterno capitão Fernandão (artilheiro e líder em assistências do Inter) encaminharam a classificação para a fase mata-mata com 4 vitórias e 2 empates, em um grupo composto pelo gigante Nacional do Uruguai, tri campeão da américa, o mexicano Pumas – aliás, houve outro jogo, onde o Sport Club Internacional enfrentou um time mexicano em uma final, mas é história para outro dia – e o já mencionado venezuelano Maracaibo.

            Por brincadeira do destino, o adversário do Inter nas oitavas de final seria nada menos que o próprio Nacional, derrotado no Beira-Rio por 3×0, com gols de Michel, Fernandão e Rubens Cardozo, entretanto, sabemos que a camisa dos gigantes pesam em mata-mata, com algumas exceções lógico, o futebol não é uma ciência exata, e ainda bem que não é.

            Com a garra clássica do Time do Povo, vitória em Montevidéu e empate por 0x0 em casa. O grande Nacional estava eliminado e o Inter seguia com fome de título, era o ano, era a hora, dava para sentir.

            Quem diria que o adversário mais difícil no caminho para a final seria a LDU? É, mas foi. Jogo enroscado em Quito, mas o Inter abriu o placar com o carequinha Jorge Wagner. Os equatorianos são valentes e como não podia ser diferente, lutaram e foram em busca do resultado até o final, resultado final? Virada com gols de Delgado e Graziani.

            Em casa o colorado fez valer o mando de campo, firmes 2×0 com passe livre para enfrentar o Libertad na semi- final – um passo mais perto do tão sonhado título – no Defensores Del Chaco, empate sem gols, triste para a torcida que foi para o estádio, mas nem tanto para gaúchos de sangue vermelho, decidir em casa, precisando de vitória por placar mínimo era motivo de confiança de que a final estava mais próxima.

            E assim o foi, mais uma vitória maiúscula em casa: 2×0. Sem choro, nem vela.

            Assim como em 2005 a final da Libertadores da América seria decidida em uma disputa entre times brasileiros, após São Paulo e Atlético Paranaense decidirem o título de 2005 (São Paulo se sagrou tri campeão da américa), era a vez do Sport Club Nacional buscar o seu primeiro título contra o São Paulo, em busca do seu quarto título.

            Primeiro jogo, Morumbi lotado, perfeito para garantir um bom resultado em casa, não é mesmo? Os são paulinos só não combinaram com o guri de Erechim, o Rafael Sóbis, rápido, esguio e atualmente com o apelido de senhor Libertadores, por que será?

            Eu lembro como se fosse ontem o que estava fazendo no primeiro jogo da final. Infelizmente minha mãe nunca foi muito fã de futebol, e era comemoração de alguma coisa, confesso que não lembro exatamente o que.

Pois bem, jantávamos, eu, minha mãe e meu pai com alguns amigos deles. Eu guri, tinha meus 10 anos, não queria saber de ficar sentado na mesa, ficava indo e voltando numa escada em um restaurante em Maceió, só para poder vislumbrar o embate entre Inter e São Paulo que estava sendo transmitido em uma TV no primeiro andar. Em uma das idas e vindas, o guri de Erechim recebeu a bola no último terço de campo, gingou em cima do Fabão e mandou um petardo cruzado, vencendo o Rogério Ceni – o arrepio vem involuntário. 1×0 Inter.

            Rafael Sóbis, o senhor Libertadores, não parou por aí. Após cruzamento de Alex, Fernandão cabeceou para o meio da área e o Tinga cabeceou no travessão. A estrela era mesmo do camisa 11, após bater no travessão a bola veio em sua direção, não contou história e pegou de bate pronto para o fundo das redes. 2 gols do ídolo colorado, 2×0 contra o São Paulo. Ainda deu tempo para o tricolor descontar, terminando o jogo em 2×1 pro Internacional.

            Os colorados já sentiam o gostinho do título e a semana que separou um jogo do outro foi massacrante. Jogo de volta em casa, Beira-Rio lotado como sempre. A fórmula do sucesso.

            Jogo pegado, muita luta e oportunidades. Ninguém esperava que o Rogério, um dos maiores goleiros que atuaram no Brasil, cometeria uma falha, mas o time vermelho não queria saber, 1×0, Fernandão, o mesmo que deu a assistência para o gol do Tinga, 2×1 Inter. O São Paulo até conseguiu o empate, mas o destino já havia a muito decidido que 16 de agosto de 2006 era o dia, o Inter era o campeão da Libertadores.

O primeiro momento de consagração: A Libertadores de 2006

Mundial de Clubes e o melhor jogador do mundo

            Dezembro chegou, assim como o calor nas terras tupiniquins, mas quem queria saber de calor? O que importava era o grande momento que desembarcava no último mês do ano, o Mundial de Clubes.

            O clube do povo jogava pela primeira vez um mundial. Antes de enfrentar o gigante europeu o Inter precisava passar pelo egípcio Al-Ahly, já de antemão é preciso informar que não foi um jogo fácil. Após gol de Pato para abrir o placar, o time árabe empatou, restando à Luiz Adriano decidir o jogo em uma cabeçada após escanteio no primeiro pau. O momento de disputar o mundo havia chegado.

            Inter se classificou em uma semi-final e o grande Barcelona, de Ronaldinho, Deco, Eto’o, Puyol, Valdes, Giuly, Iniesta, entre outros, na outra. Final decidida.

            17 de dezembro de 2006 como dito no início do texto, não é o começo dessa história, mas o fim inesperado e devidamente aguardado, Yokohama ficou pequena para o grande jogo, marcado para 19:20 no horário local.

            Aqui no Brasil por uma pequena diferença no fuso horário, o jogo começou pela manhã logo cedo, e eu garanto para você, meu querido leitor, nenhum colorado conseguiu dormir na noite que antecedeu o jogo.

            Então chegou o horário do jogo, mas um parênteses é necessário, dois ídolos um de cada lado, guardada as devidas proporções ao que jogaram em suas carreiras, ambos no auge da sua qualidade técnica. Ronaldinho de um lado e Fernandão do outro. Ronaldo de Assis Moreira ou Ronaldinho Gaúcho, o melhor jogador do mundo de 2006, o melhor jogador de futebol que eu vi jogar, com seus dribles mágicos, jogadas inimagináveis, passes espetaculares e golaços. Esse era o nosso adversário. Fernando Lúcio da Costa ou Fernandão, ídolo colorado, camisa 9 e a faixa. Em sua estreia pelo Inter, marcou o gol 1000 entre Grenais, um dos maiores clássicos do mundo, quiçá o maior, calmo, frio, técnico, o camisa 9 que por vezes jogava de “10”, hoje tá no panteão dos imortais colorados, que jogador e pessoa era Fernando Lúcio da Costa.

            Escalações confirmadas, pelo Inter: Clemer; Ceará, Índio, Fabiano Eller e Rubens Cardozo; Wellington Monteiro, Edinho, Alex e Fernandão; Iarley e Pato.

            Pelo Barça: Valdes; Zambrotta, Márquez, Puyol e Van Bronckhorst; Motta, Iniesta e Deco; Giuly, Gudjohnsen e Ronaldinho.

            Davi contra Golias. E parece que o conto se repetiu.

            O jogo foi da maneira que deveria ser, nervoso, ansioso, sofrido. O Barça atacava e criava oportunidades como sempre foi, com uma qualidade incomparável.

            O Inter por outro lado, era guerreiro, corajoso, marcava como nunca antes, tanto que o melhor jogador do mundo parou em Ceará, quem diria, não é mesmo?

            O primeiro tempo se encerrava com domínio catalão, sem grandes perigos para o gol Azul-grená. Intervalo dolorido para a torcida do clube do povo, a distância da qualidade entre os times era latente, parecia que era impossível uma vitória brasileira. As grandes jogadas pelo Inter foram do menino Pato, naquela época esperança do futebol brasileiro.

            Veio o segundo tempo, nervoso, corrido, gritado. E aos 23 minutos um lance preocupa os colorados ao redor do mundo, Fernandão disputa bola no alto com Iniesta e sente dores na perna esquerda. O ídolo colorado no chão. Logo a esperança de uma jogada diferente, seria substituído na sequência.

            Abel Braga tomou uma decisão que incomodou toda a torcida colorada. Se há algum colorado que não contestou a escolha para entrar no lugar do Fernandão, me perdoe, mas a chance desse colorado existir é bem baixa. Abel escolheu Adriano Gabiru para o lugar do capitão, outra brincadeira do destino, Gabiru nasceu em Alagoas, cidade na qual eu residia na época do mundial. Neste momento nosso técnico só não foi chamado de bonito. Mas ainda bem que ele escolheu a loucura e o impensável, ao invés do que é comum.

            Sai Fernandão. Entra Gabiru. A história estava sendo escrita.

            Grandes crônicas esportivas relatam os heróis improváveis, aqueles pelos quais a torcida não espera grandes coisas, mas resolvem jogos ou decidem títulos importantes e naquela manhã de dezessete de dezembro de dois mil e seis isso aconteceu mais uma vez.

            Em um contra-ataque aos 35 minutos do segundo tempo, um balão foi dado da defesa colorada. Luiz Adriano disputou a bola de cabeça, sobrando no pé do incansável Iarley que saiu com a bola grudada ao pé como manda o manual, além de um drible desconcertante no zagueiro espanhol. Eram três colorados contra dois, e com um passe quase cortado por Rafa Márquez para o Gabiru, este entrou cara a cara com Valdes, chutou alto no canto direito, o goleiro ainda tocou na bola, mas não o suficiente para impedir o gol colorado.

            O inesperado aconteceu, como narrou o Pedro Ernesto Denardin, o Inter seria campeão do mundo, com gol do criticado e odiado Adriano Gabiru, esse mesmo jogador que com um gol ganhou o amor eterno de todos os torcedores colorados.

Gabiru: Da reserva para o mundo

O jogo se arrastou nos minutos finais, o gigante, porém baixinho, Iarley segurou a bola perto da bandeirinha de escanteio de maneira magistral. Sabia o que tinha que fazer, gastar o relógio ao máximo para que o jogo acabasse. Então, depois de um drama inacabável, Carlos Alberto Batres apitou apontando o centro de campo, o mundial era conquistado pelo Internacional pela primeira vez em sua história.


Iarley foi um dos destaques da grande final do Mundial Fifa

Neste momento, o sentimento que tomou conta é indescritível, um gol do tamanho do planeta terra, o que os torcedores do Internacional deveriam sentir? Felicidade? Exato.

A felicidade tanto durante o gol, quanto ao final do jogo, foi sem tamanho. Eu e meu pai – que me fez amar incondicionalmente o Sport Club Internacional e por isso, além de todas as outras coisas, serei eternamente grato – gritávamos aos quatro cantos o gol do Inter, gol do Adriano Gabiru. Não teve jeito para o Barcelona, aquele dia era nosso, 17 de dezembro de 2006 era o dia de todos os colorados baterem no peito e falar:

Hoje o mundo é vermelho.

Fernandão ergue a taça. Inter campeão mundial

Publicado por Pedro Henrique

Meu nome é Pedro Henrique, também conhecido como grunge, vamos falar sobre muitos esportes aqui na pagína. Fiquem ligados!

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