Em 11 de dezembro de 1983, Renato Gaúcho e o Grêmio tomaram o mundo
*Por Gregory Pastori
11 de dezembro de 1983, Tóquio, Japão. Inverno rigoroso, não desses como faz no Rio Grande do Sul, mas próximo, campo seco que prejudicava o toque de bola. Foi nessas condições que o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, ou simplesmente o Grêmio, enfrentou o Hamburgo na disputa do seu primeiro Título Mundial. À época o torneio se chamava Copa Europeia/ Sul-Americana ou mesmo Copa Intercontinental, mas a FIFA reconhece os títulos daquela época como de campeões mundiais, então não me cabe discordar.
O Grêmio chegava ao Mundial depois de vencer a segunda Copa Libertadores da América que havia participado, passando por times como Estudiantes e América de Cali e disputando a final em um jogo lotado no saudoso Olímpico, contra o gigante Peñarol, que até então já havia vencido 3 Mundiais e 4 Libertadores.
No jogo de ida o Tricolor conseguiu sair vivo do estádio Centenário, trazendo na bagagem um empate por placar mínimo, que poderia ser considerado uma vitória diante do peso que o Peñarol já tinha em competições internacionais.
Na volta, com o Olímpico lotado e pulsando, empurrando o time que abriu o placar com Caio, mas sofreu o empate na segunda etapa. O time dos pampas não se intimidou e conseguiu ampliar o placar para se sagrar Campeão da Libertadores, em um jogo típico da competição, marcado por jogadas violentas, que tiraram sangue, literalmente, dos jogadores, como mostra a clássica foto de De Léon erguendo a taça.

A equipe Tricolor já vinha de um trabalho consolidado, tendo chegado ao vice-campeonato brasileiro de 82 e alguns jogadores já estavam na equipe há uma década, como o atacante Tarciso que chegou ao time em 1973, vindo do América -RJ. Um pouco depois, em 1979, vindo do Esportivo de Bento Gonçalves, chegou aquele que para muitos torcedores é o maior Ídolo do clube, um ponteiro direito, que arranjava tanta confusão fora do campo, quanto era bom dentro dele, Renato Portaluppi.
Do outro lado do muro

No início da década de 80 o time do Hamburgo era uma das grandes forças dentro da Europa, sendo a base da seleção da Alemanha Ocidental além de já ter ganhado seis vezes o campeonato nacional. Em 83 a equipe liderada por Ernst Happel venceu a Liga dos Campeões com apenas uma derrota, somando seis vitórias e dois empates, derrubando o Juventus da Itália que já havia vencido 20 vezes o campeonato nacional.
O Jogo

Como era de se imaginar o Hamburgo jogava com sua frieza e tranquilidade tradicionais no inicio do jogo, dominando o meio campo e acelerando no ataque, porém parando na boa zaga do Grêmio, composta por Baidek e De Léon. Muito nervoso no início o Grêmio errava muitos passes e não conseguia desenvolver as jogadas. Com o jogo bem disputado, a primeira chance de gol veio aos 20 minutos, quando Magath cruzou para Hansen que vinha entrando na área, porém novamente De Léon se impôs e afastou o perigo. Na sequência, Hansen de novo entrou área a dentro e mais uma vez a zaga salvou.
Só aos 31 minutos o Grêmio conseguiu chegar ao ataque em jogada de Renato Portaluppi, que em velocidade foi até a linha de fundo e cruzou para a área, fazendo com que a zaga alemã afastasse o perigo para escanteio. Na cobrança, Mário Sérgio quase marcou um gol olímpico, mas ficou só no quase.
Porém logo ali adiante, sete minutos depois, após o Hamburgo ter chego no ataque, Paulo Roberto desarmou e acionou Paulo César Caju que lançou para Renato, de novo ele, que vinha pela direita. Mais uma vez Renato levou a bola até a linha de fundo, já dentro da área adversaria, fintou como se fosse fazer o cruzamento, deslocando o marcador da jogada e já quase sem ângulo soltou a bomba. A bola passou onde só ela poderia passar, entre o goleiro Stein e a trave, balançado as redes do Hamburgo. Ainda houve tempo pro Hamburgo tentar uma reação no final do primeiro tempo, obrigando o goleiro Mazzaropi a fazer mais uma defesa gigante.

No segundo tempo, o Grêmio melhorou de ritmo e já aos 2 minutos Mário Sérgio cruzou para Paulo César Magalhães que livre, dominou e chutou meio sem ângulo, mas a zaga adversária ainda desviou.
Os alemães continuavam a dominar o meio-campo, mas não conseguiam transformar esse domínio em ataque. Enquanto isso o tricolor empilhava tentativas, sem sucesso de ampliar o marcador.
Quando o jogo já passava dos 40 minutos da etapa complementar, o lance derradeiro que quase apagou o ânimo dos gremistas. Bonamigo tocou a mão na bola e o juiz marcou falta. Na cobrança Magath, que até então vinha sendo destaque no jogo pelo lado alemão, levantou na área para Jakobs que cabeceou na pequena área escorando a bola para Schroder, que dominou e balançou a rede do lado tricolor. O Grêmio ainda tentou uma reação nos minutos finais, como era característico da garra do Imortal Tricolor mas, sem sucesso. A decisão seria na prorrogação.

Nos últimos e derradeiros minutos, o Grêmio com folego de garoto voltou voando para tentar matar o jogo e logo aos três minutos, novamente ele, o craque Renato, recebeu bola de Tarciso, e de canhota, tirando o goleiro da jogada, ampliava o marcador e comemorando como se não houvesse amanhã.
O Hamburgo ainda tentou buscar o empate, mas Mazzaropi, inspirado, fez outra bela defesa. Por fim o time do lado de lá do oceano não conseguiu empatar, quiçá virar a partida e o Grêmio se sagrava Campeão Mundial.Depois de passar a década de 70 vendo o rival conquistar estaduais, e Brasileiro invicto, o Mundial veio para apagar essa parte obscura da história do Tricolor e coroar as conquistas que a equipe vinha trabalhando para alcançar. Depois de bater na trave no Campeonato Brasileiro de 82, o ano de 83 serviu como redenção para o Grêmio que conquistava o mundo pela primeira vez.

Fantástica história do maior tricolor do Sul do Brasil.
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